segunda-feira, 25 de outubro de 2010

Júnior

Todo mundo lembra de coisas que não viu. Copas do Mundo que o Brasil ganhou e perdeu, incêndios, bomba atômica, essas coisas. E tem aquelas histórias de família, quando a gente existia ou não. De tanto ouvir, a gente até acaba vendo. Eu acho que de tudo que eu lembro na vida, a imagem que não sai da minha cabeça é a do meu irmão, o Júnior. Ele tinha três anos quando eu nasci. Faz tempo isso. O Júnior era lindo. Tinha o cabelo crespinho e bem preto, o cabelo que eu queria ter. Mas o meu cabelo é liso, muito liso. Se eu pudesse ser alguém, eu queria ser o Júnior. Quando eu nasci ele ficou diferente. Coisa do tempo em que a gente era pequeno e os pais não sabiam como tratar. O Júnior ficou agitado, vivia aprontando. Começou a fazer coisas chatas. Vivia subindo nos móveis, derrubando coisas. Isso é o que me contaram, porque eu era muito pequeno pra lembrar. Acho que o Júnior não aguentou um bebê na casa em que ele era o bebê. De dia ele aprontava, à noite virava um bebê também. A mãe e o pai até que se esforçavam pra dividir a atenção. O pai deixou de jogar bola nas segundas e de ver os jogos do colorado. Tudo pra dar mais atenção ao Júnior. O pai eu não vejo há tempos, desde que ele e a mãe se separaram. Mas a mãe vive dizendo que eu aprendi a dividir muito cedo, ao contrário do Júnior. Eu sei que, à noite, ele não queria mais dormir no quarto dele. Chorava muito e acabava ficando na cama com o pai e a mãe. Eu dormia no meu berço. Se eu chorasse durante a noite, o Júnior chorava também. Quando a mãe me dava a mamadeira, ele lutava com o pobre pai na sala. Consigo imaginar a cena: o pai cansado e o Júnior fazendo a maior bagunça, feliz da vida. Depois ele deitava no meio dos meus pais, beijava e abraçava os dois e dormia como um anjo. Era impossível não amá-lo muito. Por essas coisas, o pai e mãe nunca se importaram com as coisas ruins que ele fazia. As boas eram tão boas que compensavam tudo. E os dias iam passando, e os meses. Eu ia crescendo, precisando de cada vez menos atenção. Mas o Júnior continuava diferente mesmo assim. Um dia ele conseguiu trancar a porta do quarto. A mãe quis entrar e não conseguiu. Chamou e ele não respondeu. Ela ficou tão nervosa que não encontrou a chave reserva. Então chamou o zelador, que deu um tranco com o ombro na porta e ela abriu. Arrancou o marco, mas abriu. Quando eles entraram, o Júnior estava deitado no tapete olhando um livro. Era tão lindo que a mãe nem brigou com ele: só pediu pra não trancar a porta nunca mais. Quando eu tinha uns sete meses o Júnior fez a maior de todas as bobagens. Era verão, um dia muito quente. Todos os ventiladores ligados, todas as janelas abertas e o calor insuportável do mesmo jeito. A mãe tava fazendo o almoço. Eu tava na sala, no chiqueirinho, com a TV ligada pra me fazer companhia. O pai tava trabalhando, é claro. E o Júnior ficou brincando no quarto dele. A mãe chamou pro almoço e ele não respondeu. Foi até o quarto e viu que a porta tinha sido trancada de novo. Chamou e ele não respondeu, igualzinho à outra vez. Ela nem se preocupou: pegou a chave reserva no quarto e abriu a porta. Mas ele tinha se escondido. Ela olhou embaixo da cama e no roupeiro. Ele não tava. Daí ela olhou atrás de um cesto e ele também não tava. Ela não acreditou quando olhou pela janela e o Júnior tava no pátio do prédio, deitado, com uma mancha de sangue perto da cabeça. Ela nunca esqueceu do que viu. E eu, que não vi, também não consigo esquecer.

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