domingo, 11 de julho de 2010

Gerônimo (umtextopordia.blogspot.com)

Gerônimo

Gerônimo era o nome do cavalo do meu pai. Quando eu nasci, o Gerônimo já puxava a carroça do meu pai.
Eles catavam garrafa e ferro velho pra vender, levavam a mudança dos nossos vizinhos, o que desse pra fazer
com uma carroça, o pai e o Gerônimo faziam.

Às vezes eu acho que o Gerônimo é que sustentava a nossa família. O pai bebia pra caramba, não conseguia
nem andar. Mas quando pegava a carroça, o Gerônimo já sabia o caminho. Ia passando pelas ruas onde o
pai recolhia garrafas e, às vezes, eles até encontravam alguma coisa. Daí levavam no ferro-velho e pegavam
alguma grana. Não faltava comida em casa. Quase nunca.

Se comparando com os outros vileiros a gente até que tinha sorte, numa coisa era igual a todos os outros
maloqueiros. Acho que ninguém nunca cozinhou um pedaço de carne na nossa vila. Meu pai morreu e a
gente nunca fez um churrasco lá em casa. Carne, só quando sobrava, azedava e alguém oferecia pra gente.
Tinha que aceitar. Porra, quem não aceitaria.

Quando o pai morreu, fiquei com a carroça. Como eu já ajudava o pai com o trabalho, conhecia todas as
quebradas. Ganhava algum dinheiro - o suficiente pra sustentar a mãe e minhas irmãs. Daquele jeito que
o pai sustentava, com quase nada. Arroz, feijão, farinha, leite e era isso. Nada mais. Às vezes as minhas
irmãs traziam uma carne das casas onde trabalhavam. Mas sempre naquele esquema quase podre. Foda-se,
era carne e a gente comia.

Comi uma vizinha e ela embuchou. Além da mãe e das minhas duas irmãs, agora tinha que sustentar mais
a vizinha, que foi morar com a gente. Eu não gostava muito dela, mas também não conhecia nenhuma outra
mina da vila que desse pra casar. O Gerônimo e eu começamos a sair mais cedo pra trabalhar, e a voltar
bem mais tarde. E conseguimos alimentar as quatro.

Quando nasceu uma menina, vi que eu tinha uma sina muito fodida. Engordar mulher pra outro vagabundo comer.
Até minha mãe tinha se amigado com um velho cachaceiro e ele andava enfiado na nossa maloca.
Eu tinha que agüentar.

O Gerônimo não.

A menina nasceu na sexta e vinha pra nossa maloca no domingo, perto do meio-dia. O Gerônimo morreu
no sábado, depois do trabalho. Ele morreu meio longe da vila, num mato onde a gente parava pra ele pastar antes
de ir pra casa. Corri até a vila e chamei um parceiro que trabalhou uns tempos num açougue. Ele descolou umas
facas fodidas de tão afiadas e a gente se mandou pro mato. O Gerônimo ainda nem tinha esfriado. Meu parceiro
tirou um doze quilos de carne dele, limpou e a gente correu de volta pra vila, pra guardar os pedaços do Gerônimo
na geladeira.

Quando a menina chegou, no domingo, teve uma recepção de princesa. Fiz um churrasco e convidei todos os
vizinhos. O meu parceiro que carneou o Gerônimo me ajudou a assar.

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